Entrevista: “Cada uma de nós tem nossos direitos”

Para começar o debate, partimos daquela que deve ser a protagonista por excelência: Helena, uma mulher de 35 anos, mantida em prisão preventiva por ter furtado uma bandeja de carne, relata em entrevista as condições e os impactos da sua prisão.

Entrevista: Mariana Lins de Carli Silva,

Transcrição: Nina Cappello, edição: Mariana Lins de Carli Silva e Raquel da Cruz Lima.

Ninguém melhor para relatar as violações de direitos decorrentes do encarceramento do que as próprias pessoas presas. No caso das mulheres presas, a ruptura do silêncio sobre suas histórias e a possibilidade de expressar suas opiniões manifesta uma esperança na busca pelo desencarceramento. As histórias contadas em primeira pessoa são uma tentativa de sensibilização, em especial dos atores do sistema de justiça criminal, ao demonstrar que o conteúdo de um processo criminal é uma vida humana, uma trajetória notadamente marcada por violências, principalmente no que diz respeito às mulheres. Helena, 35 anos1, primária, foi mantida em prisão provisória por tentativa de furto de uma bandeja de carne e de uma pomada para assaduras em um supermercado. Mãe de quatro filhos e grávida do quinto, única responsável pelo provimento de sua família, seu depoimento revela a importância e a urgência em aplicar alternativas à prisão de mulheres.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Helena concedeu ao Instituto Terra, Trabalho e Cidadania, em março de 2016, no âmbito do projeto “Alternativas à prisão provisória de mulheres: desenvolvendo estratégias para implantar as Regras de Bangkok no contexto brasileiro”.

 

Helena: Amanhã faz três meses que eu estou presa. Eu estou no 155 [furto].

ITTC: Você foi pra audiência de custódia?

H: Não. Se a gente fosse presa na sexta, até dia 18, a gente tinha ido. Mas nós fomos presas dia 19, no sábado à tarde. Aí não teve. Nós fomos para a audiência só agora, faz um mês e pouco

 

ITTC: E você já estava grávida?

H: Já estava grávida, de três meses e pouco, quase quatro.

 

ITTC: Você tem outros filhos?

H: Quatro filhos. A Iara tem catorze, a Michele tem dez, o Gabriel tem oito e a Aninha tem dois anos. Mas agora eu estou aqui sozinha. Minha mãe não vem, porque ela está com eles lá. Ela me mandou uma carta hoje falando que está muito difícil lá pra ela, falou que está desempregada, que não está fácil pra ela.

 

ITTC: Eu queria saber um pouco de você, de como era a sua vida antes de você vir pra cá.

H: Só tinha três meses que eu estava desempregada. Eu trabalho de limpeza, com registro na minha carteira e eu estava morando com os meus filhos, com meus quatro filhos, em uma casa de aluguel. Até que eu parei de trabalhar. Era difícil, porque eu tinha que pagar o aluguel, eu vendi até uma geladeira nova que eu tinha ganhado para pagar o aluguel. Nesse dia em que eu fui presa, eu briguei com o dono da casa e aí ele falou assim, “então você vai sair, eu vou te dar de domingo até segunda pra você sair”. Ele até falou pra mim que ia desligar a água e a luz. E eu falei «desligue, se você desligar, você vai ver o que que eu vou fazer». Aí, né, que eu falei, “eu estou grávida e tenho quatro filhos, você não tem que me colocar na rua”.

 

ITTC: Como foi o dia do seu flagrante?

H: Eu fui presa dia 19 de dezembro, eu passei o natal aqui. Eu fui para o mercado com as meninas...Nós entramos no mercado e aí a gente pegou as carnes, uma das meninas colocou as carnes na minha bolsa. E nesse dia também tinha um lencinho para bebês, da Johnson, e duas pomadas para assadura que eu ia levar para a Aninha, que estava assadinha. Deus sabe por que que eu fui roubar. Eu não fui roubar para comprar droga não, eu não fui roubar para eu usar droga não, nada, foi pra eu dar para os meus filhos.

 

ITTC: Você acompanha sua gestação na unidade prisional?

H: Não, aqui na prisão eu não fiz nada, não tenho nada feito. Só Deus mesmo. A enfermaria é horrível.

 

ITTC: E você tem alguma atividade de lazer aqui dentro?

H: Tem nada pra fazer lá naquele raio. Eu fico o dia todo na cela. Às vezes, quando eu saio, sento um pouquinho no pátio, doem minhas costas, eu deito lá no chão, fico deitada, até dar a hora da tranca. O dia-a-dia é isso. Três mês assim, sem fazer nada. Só.

 

ITTC: Como que é ficar sem fazer nada?

H: Deus do céu, é muito difícil... Tem hora que eu choro... aí às vezes que tem tumulto lá, eu vou pra igreja, falo pra Deus, “me tira daqui, que aqui não tem nada”. Amanhã é dia de visita, é o pior dia...(choro) Só isso que eu tenho pra dizer.

 

ITTC: Como é a cela?

H: É, a gente dorme de “valete”, que é dormir com a outra companheira, também grávida, na mesma cama. Tem doze camas na cela. A minha está com 18 meninas. Então, está todo mundo “na praia”, que é o chão.

 

ITTC: Como que é a sua alimentação?

H: A comida vem de fora. Tem vezes que vem estragado. Um dia desses a gente até negou a comida, não comemos. As comidas aqui estão horríveis.

 

ITTC: Eu queria falar um pouquinho do seu processo agora. É a Defensoria Pública que está na sua defesa?

H: Não está. Se estivesse, acho que eu já tinha ido embora. Eu estou com uma raiva desse advogado. O meu processo está no aguarde, vai dar vinte dias agora terça-feira. Nós estamos nesse “aguarde” para ver se eu vou embora ou não vou. Eu creio que eu vou embora, é a minha esperança, eu não vou ficar. Está na mão de Deus.

 

ITTC: Como foi na audiência? Perguntaram da gravidez?

H: Ela [a juíza] não perguntou. Ela só perguntou se eu tinha filhos, eu falei que eu tinha. Eu falei que sempre trabalhei, falei o último lugar que eu trabalhei, sete meses atrás, como auxiliar de limpeza. Perguntou quanto eu ganhava, eu falei: “ah, eu ganhava 900 e pouco, quase mil por causa dos meus filhos”. Só. E falou: “pode tirar ela”. Depois chamou as outras meninas, o policial, foram todas bem rápidas.

 

ITTC: Tem alguma coisa que eu não perguntei que você queria falar?

H: Olha, está muito ruim a comida. Independentemente que tem muita presa aqui, cada uma tem os seus BOs, mas nós somos gente, nós somos seres humanos. Cada uma de nós tem nossos direitos, então a gente tem que comer. Independentemente de qualquer coisa que a gente tenha feito, nós somos gente, nós temos que comer um pouco melhor. E a comida não está boa. Não está mesmo, está horrível. Mas eu como mesmo por causa do meu bebê.

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1.O nome da entrevistada e seus filhos foram modificados para garantia de sigilo de seus dados.